Escopo
Pesquisa-mapa do laboratório BudGanja: catálogo de ofício dos fitocanabinoides — moléculas de planta (sobretudo Cannabis sativa L.) que se ligam, modulam ou cruzam a mesma rede que o endocanabinoidoma.
Não substitui a planta, o guia de quimiotipos nem a Aula 10 do XIV UNIFESP. Aqui o objecto é a família química: ácidos na planta viva, neutros após calor/tempo, série pentil vs propil, e o que o laboratório pode nomear sem virar bula.
Nota metodológica: auditoria editorial independente. Não é aconselhamento médico, laudo analítico, protocolo de extração, dose nem cultivo. Indexar literatura ≠ endossar produto, associação ou cultivar. Confirmar sempre fontes primárias e a bula/profissional responsável. Sem afiliação com indústria, ANVISA ou UNIFESP.
Pergunta-guia
O que é um fitocanabinoide, como a planta os organiza a partir da CBGA, e como ler THC, CBD, CBG e os menores sem reduzir a cannabis a um isolado?
Estado
Relatório de catálogo · pesquisa em andamento (`pesquisa-laboratorio`). Degrau 1: três famílias · biossíntese de ofício · tabela-mãe · ácidos/neutros · receptores · quimiotipos · limites clínicos e legais. Degraus futuros: um composto aprofundado de cada vez, com papers âncora.
Metadados
| Campo | Valor |
|---|---|
| Tipo | Pesquisa documental / catálogo químico de ofício |
| Série | Laboratório |
| Unidade | Inspetor BudGanja (editorial) |
| Âncoras | Cannabis sativa · Quimiotipos · Endocanabinoidoma · XIV Aula 10 |
| Hub | Pesquisas |
| Data | 2026-08-19 |
Hipóteses (fracas)
- H1: Fitocanabinoide ≠ endocanabinoide ≠ sintético — três origens, uma rede de leitura.
- H2: Na planta fresca predominam ácidos (THCA, CBDA, CBGA…); os neutros (THC, CBD, CBG) aparecem sobretudo com calor, luz e tempo.
- H3: A CBGA é o nó-mãe da via clássica; THCA / CBDA / CBCA são ramificações enzimáticas, não «três drogas soltas».
- H4: Quimiotipo (1–5) descreve teor relativo, não taxonomia popular sativa/índica (guia).
- H5: Isolado ≠ planta inteira. A tese do efeito comitiva é hipótese de leitura, não milagre comprovado para cada indicação.
- H6: Literacia química não autoriza extração caseira nem uso clínico sem profissional.
1. Três famílias (não misturar)
| Família | Onde nasce | Exemplo | Leitura BudGanja |
|---|---|---|---|
| Fitocanabinoides | Planta (tricomas de cannabis; raros noutros géneros) | THCA, CBD, CBG | Esta pesquisa |
| Endocanabinoides | Corpo humano/animal | Anandamida, 2-AG | Endocanabinoidoma · meditação × eCBome |
| Canabinoides sintéticos | Laboratório humano | Fármacos registados ou agonistas ilícitos tipo «spice» | Distinção de ofício — sem receita de síntese |
Fitocanabinoide = canabinoide de planta. A palavra não significa «natural = inofensivo». THC vegetal activa CB1; o dano no neurodesenvolvimento não desaparece por ser «da planta».
Canabinoides sintéticos de farmácia (ex. nabilona, dronabinol em outros países) não são a mesma classe de risco que agonistas CB1 clandestinos de elevada potência. O laboratório nomeia a diferença; não ensina a fabricar nenhuma das duas.
2. Onde estão na planta
Nas flores femininas, os tricomas glandulares acumulam resina: fitocanabinoides + terpenos (guia quimiotipos). Folhas, caule e sementes têm teores típicos muito mais baixos. O catálogo da planta trata o organismo; esta ficha trata as moléculas.
Literatura de fitoquímica descreve mais de uma centena de fitocanabinoides em cannabis. A maior parte é vestigial. O ofício do laboratório é ler os eixos (mãe CBGA, ramificações, série varin, oxidação) — não memorizar 120 siglas.
3. Biossíntese de ofício (sem protocolo)
Mapa de livro, não de bancada:
- Cadeia de policetídeo + malonil → ácido olivetólico (esqueleto C5 / pentil).
- Ácido olivetólico + geranil-difosfato → CBGA (canabigerólico) — o nó-mãe.
- Enzimas da planta ramificam a CBGA:
- THCAS → THCA
- CBDAS → CBDA
- CBCAS → CBCA
- Se o arranque usa ácido divarinólico (C3 / propil) em vez de olivetólico, nasce a série varin: CBGVA → THCVA, CBDVA, CBCVA.
- Descarboxilação (calor, luz, tempo): o «A» sai — THCA→Δ9-THC, CBDA→CBD, CBGA→CBG.
- Envelhecimento / oxidação: Δ9-THC → CBN (e outros produtos). Luz sobre CBC pode ir a CBL.
O laboratório não publica solventes, temperaturas de extração, rendimentos nem «como decarboxilar em casa». Quem precisa de laudo usa laboratório acreditado; quem precisa de terapêutica usa profissional e produto regularizado.
4. Ácidos e neutros
| Forma na planta viva | Neutro (após calor/tempo) | Nota de ofício |
|---|---|---|
| CBGA | CBG | Precursor; quimiotipo 4 quando CBG/CBGA mandam |
| THCA | Δ9-THC | THCA em si tem perfil distinto do THC; o «alto» clássico é do neutro |
| CBDA | CBD | Ácido estudado à parte; não é «CBD cru» no sentido de marketing |
| CBCA | CBC | Menor; via cromeno |
| CBGVA | CBGV | Série propil |
| THCVA | THCV | Varin |
| CBDVA | CBDV | Varin |
Ler um rótulo «THC 20%» sem saber se o laudo é total (ácidos convertidos por cálculo) ou só neutro é erro de literacia. Farmacêuticos: guia.
5. Catálogo — eixos principais
5.1 CBGA / CBG — a mãe e o «não psicoativo» relativo
Canabigerol. Na planta, a maior parte da via passa pela CBGA. Cultivares de quimiotipo 4 acumulam CBG porque a ramificação para THCA/CBDA está reduzida. CBG liga-se de forma fraca a CB1/CB2; a literatura explora TRP, PPAR e α2-adrenérgico. Não é «THC sem efeito» nem milagre anti-ansiedade — é nó biossintético e menor clínico ainda em construção.
5.2 THCA / Δ9-THC — o eixo psicoativo clássico
Δ9-tetrahidrocanabinol. Agonista parcial CB1/CB2. Responsável pelo efeito psicoativo típico, taquicardia, alteração de memória de curto prazo, e — em pessoas vulneráveis — risco de psicose e pior trajectória se o uso é precoce e pesado. O artigo Albaugh inspeciona associação com córtex em adolescentes: associação ≠ receita, mas o laboratório não esconde o sinal.
THCA (ácido) na flor fresca não é o mesmo fármaco que o Δ9-THC. Descarboxilação (fumar, vaporizar, cozinhar) converte. Δ8-THC é minoritário na planta fresca; produtos «Delta-8» de mercado muitas vezes vêm de conversão química de CBD — zona cinzenta regulatória, fora do catálogo da planta viva.
5.3 CBDA / CBD — o eixo não euforizante mais estudado
Canabidiol. Baixa afinidade directa CB1/CB2; modula a rede (alosteria negativa em CB1, 5-HT1A, TRPV1, enzimas do eCBome). Evidência mais sólida em epilepsias raras (fármaco registado noutros países; no Brasil o acesso passa por regras da ANVISA e prescrição). Isolado ≠ full spectrum: a Aula 10 e Eliana no XIV insistem na curva em U e no risco de subir a dose do isolado a pensar que «é só CBD».
CBD não anula automaticamente o THC; pode alterar o efeito, não é antídoto de festa.
5.4 CBCA / CBC — cromeno
Canabicromeno. Menor. Literatura pré-clínica (TRPA1, inflamação). Poucos ensaios robustos em humanos. No mapa XIV aparece nas actividades da aula — ponto no mapa, não indicação.
5.5 CBN — o tempo no frasco
Canabinol. Produto de oxidação do THC. Afinidade CB1 mais fraca. Marketing de «CBN para dormir» corre à frente da evidência. Ofício: CBN no laudo também pode significar material envelhecido ou mal armazenado — literacia de cadeia, não só de sono.
5.6 Série varin (C3) — THCV, CBDV, CBGV
Cadeia lateral propil (três carbonos) em vez de pentil (cinco).
| Sigla | Nome | Leitura prudente |
|---|---|---|
| THCV | Tetrahidrocanabivarina | Em doses baixas a literatura descreve perfil distinto do THC (incluindo antagonismo CB1); não é «dieta em gotas» |
| CBDV | Canabidivarina | Investigada em epilepsia/neuro; não substituir fármaco prescrito |
| CBGV / CBCV | Varins de CBG/CBC | Vestigiais na maior parte dos laudos |
Quimiotipos africanos/asiáticos clássicos (ex. algumas landraces) são citados na literatura por THCV — etnografia química, não ranking de «strain».
5.7 Outros menores (para não fingir que o catálogo acaba em três)
| Sigla | Nome curto | Nota |
|---|---|---|
| CBL | Canabiciclol | Fotoconversão a partir de CBC |
| CBE | Canabielsoína | Relacionado com oxidação do CBD |
| CBT | Canabitriol | Menor, várias isómeros |
| Δ8-THC | Delta-8 | Vestigial na planta; produtos comerciais ≠ flor |
| THC-O / HHC / etc. | Semi-sintéticos de mercado | Fora do catálogo fitocanabinoide clássico; risco regulatório e analítico alto |
O laboratório recusa tratar semi-sintéticos de e-commerce como «da planta». São outra família — mais perto da coluna «sintético» da tabela 1.
6. Receptores — mapa, não dose
| Alvo | Leitura de ofício |
|---|---|
| CB1 | Abundante no SNC; eixo do efeito psicoativo do THC; também fome, memória, dor |
| CB2 | Mais periférico/imune na narrativa clássica — simplificação útil, não mapa completo |
| TRPV1 / TRPA1 | Canais de «pimenta/frio» — CBD, CBC, CBG cruzam aqui na literatura |
| 5-HT1A | Serotonina — hipótese recorrente para CBD e ansiedade; evidência mista |
| PPAR | Nucleares — metabolismo/inflamação em modelos |
| GPR55 e outros | Fronteira — não usar como slogan de produto |
O endocanabinoidoma é a rede endógena. Fitocanabinoides são moduladores exógenos dessa rede — por isso a meditação e o estilo de vida aparecem no XIV como camada sem molécula da planta. As duas camadas não se anulam nem se substituem.
7. Quimiotipos (não sativa/índica)
Síntese já inspeccionada no guia de quimiotipos (Aula 10, Prof. Diogo):
| Tipo | Predominância |
|---|---|
| 1 | Δ9-THC |
| 2 | THC ≈ CBD |
| 3 | CBD, THC baixo |
| 4 | CBG |
| 5 | Quase sem fitocanabinoides (eixo fibras / cânhamo industrial) |
Terpenos (mirceno, limoneno, β-cariofileno, pineno, linalol…) partilham vias e o cheiro; β-cariofileno ainda liga CB2. São comitiva, não substituto do laudo de canabinoides.
8. Clínica, lei e o que esta pesquisa não é
- Clínica: guia médicos · farmacêuticos · Carlini · curso UNIFESP · CANABinALL. Esta ficha não indica doença, dose, via nem substituição de fármaco.
- Desenvolvimento: uso na adolescência e gravidez = zona de cautela forte (Albaugh).
- Direcção / máquinas: THC prejudica tempo de reacção — literacia de dano, não moralismo.
- Brasil: acesso a produtos de cannabis envolve prescrição, regras da ANVISA e, para cultivo, via judicial/Defensoria — confirmar o direito vigente; o laboratório não é escritório.
- Cadeia industrial: quando a molécula vira commodity, entra no mapa molécula → lixo.
9. Rede BudGanja
| Camada | Fichas |
|---|---|
| Planta / palavra | Cannabis sativa · hub planta · palavra cannabis |
| Composição | Quimiotipos · XIV Aula 10 |
| Corpo / cérebro | Endocanabinoidoma · Meditação × eCBome · Albaugh |
| Formação | Curso UNIFESP · CANABinALL · Carlini |
| Ofício clínico | Médicos · Farmacêuticos |
| Léxico | Guia técnico · droga |
| Pesquisa irmã | Da molécula ao lixo |
10. O que esta pesquisa não afirma
- Que «completo» = todos os >100 traços com paper próprio neste degrau.
- Que CBD cura ansiedade, cancro ou insónia por ser tendência.
- Que CBN é hipnótico comprovado.
- Que THCV emagrece.
- Que full spectrum é sempre superior ao isolado em qualquer doença.
- Receita de extração, decarboxilação caseira, cultivo ou síntese.
- Equivalência entre flor, óleo de associação, fármaco registado e semi-sintético de internet.
Próximos degraus
- THC / THCA — ficha profunda (receptores, janelas de risco, laudo total vs neutro).
- CBD / CBDA — evidência por indicação, isolado vs comitiva, interacções.
- CBG — quimiotipo 4 e o que a literatura ainda não segura.
- Varins — THCV/CBDV com papers âncora, sem marketing.
- Terpenos cruzados — tabela de ofício ligada a esta (não duplicar o guia).
Status
Publicado — catálogo de ofício (degrau 1). Aprovado para o hub Pesquisas como mapa-mãe da linha fitocanabinoide. Actualizações incrementais por composto.
▶ Quimiotipos · ▶ Endocanabinoidoma · ▶ Planta · ▶ Pesquisas · ▶ XIV Aula 10
Laboratório